O IFC é o idioma comum entre softwares BIM. Entender o que ele carrega, o que ele deixa para trás e por que existem tantas versões resolve a maior parte das brigas de coordenação.
A cena se repete em todo escritório que começa a trabalhar em BIM: o estrutural pede o modelo, alguém exporta um IFC, e duas horas depois chega a mensagem de que "o arquivo abriu errado". As paredes viraram blocos, os ambientes sumiram, o modelo nasceu a quinhentos metros da origem, ou nada disso aconteceu e o problema é outro: abriu perfeito, mas não tem nenhuma informação dentro.
Quase sempre o IFC não é o culpado. O que está errado é a expectativa sobre ele.
Este artigo explica o que o IFC realmente é, o que ele consegue e o que ele não consegue transportar, por que existem tantas versões circulando ao mesmo tempo e o que fazer, na prática, para que o arquivo que sai do seu escritório seja usável do outro lado.
O que é IFC
IFC é a sigla de Industry Foundation Classes. É um esquema de dados aberto e neutro para descrever informação de edificações e obras de infraestrutura, mantido pela buildingSMART International, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve os padrões abertos do setor.
Ele é norma internacional: a versão vigente é a ISO 16739-1:2024, publicada em março de 2024. No Brasil, a ABNT publicou a versão nacional, a ABNT NBR ISO 16739-1, em dezembro de 2023.
A palavra importante na definição é esquema, não formato. O IFC não é um "formato de arquivo" no sentido em que o DWG é. Ele é um dicionário de classes: define que existe uma coisa chamada IfcWall, que ela pode ter uma altura, um material, uma relação com um pavimento, uma propriedade de resistência ao fogo. Qualquer software que entenda esse dicionário consegue ler o que o outro escreveu, sem que nenhum dos dois precise abrir o formato nativo do outro.
Isso é o que o setor chama de openBIM: colaborar por meio de padrões abertos em vez de depender de todos usarem o mesmo software do mesmo fabricante.
Interoperabilidade não é "abrir o arquivo do outro"
Aqui está a confusão que gera 90% da frustração com IFC.
Interoperabilidade não significa que o modelo do arquiteto vira um modelo editável na mão do engenheiro, com todas as paredes ainda paramétricas e prontas para serem modificadas e devolvidas. Isso se chama round-trip, ida e volta, e o IFC não foi projetado para isso. A própria documentação das versões do IFC diz explicitamente que não é para esse cenário.
O que o IFC faz é transferir informação estruturada em um sentido: geometria, hierarquia espacial, classificação dos elementos e propriedades, para que o outro lado use como referência confiável para o trabalho dele.
Na prática, quando o estrutural recebe o seu IFC, o que ele precisa é conseguir ver onde estão as paredes, saber que aquilo é uma parede e não um sólido genérico, saber a que pavimento pertence, e checar interferência com as vigas dele. Ele não precisa editar a sua parede. Se precisar, o processo está errado, não o formato.
O modelo nativo continua sendo o original. O IFC é a entrega, não o arquivo de trabalho.
As versões do IFC, e por que isso te afeta
Essa é a parte que confunde mais, porque existem versões oficiais convivendo há quase vinte anos.
| Versão | Lançamento | Norma ISO | Situação hoje |
|---|---|---|---|
| IFC2x3 TC1 | julho de 2007 | ISO/PAS 16739:2005 | Oficial, ainda a mais usada na prática |
| IFC4 (4.0.2.1) | outubro de 2017 | ISO 16739-1:2018 | Oficial |
| IFC4.3.2.0 | abril de 2024 | ISO 16739-1:2024 | Oficial, versão atual |
| IFC4.4 | em desenvolvimento | Extensão e correções | |
| IFC5 | em desenvolvimento (alpha) | Reformulação da estrutura do IFC4.x |
Dois pontos que valem mais do que a tabela inteira:
Primeiro: o IFC2x3, de 2007, continua sendo o mais usado. Não por teimosia. É a versão com implementação mais madura e testada em todos os softwares do mercado, e por muito tempo foi a única com certificação ampla. Se você não sabe o que o outro lado usa, IFC2x3 ainda é a aposta mais segura. Não é a mais moderna, é a que tem menos chance de quebrar.
Segundo: o IFC4.3 é o salto que interessa a quem faz infraestrutura. Ele foi aprovado como norma final justamente por estender o esquema para além da edificação: estradas, ferrovias, pontes, portos e vias navegáveis. Para um escritório que só faz edificação, a urgência é menor. Para quem toca projeto viário ou trabalha com órgãos públicos de infraestrutura, é o que passa a ser exigido.
O IFC5 ainda está em fase alpha, exploratória, e não é assunto de contrato hoje. É assunto de acompanhar, não de esperar.
No Archicad, a documentação oficial da versão 29 confirma o suporte a importação e exportação de IFC2x3, IFC4 e IFC4.3. Ou seja: a escolha da versão é sua e é uma decisão de projeto, feita a partir do que o destinatário consegue ler, e não do que é mais novo.
Os arquivos que você vai encontrar
O mesmo esquema IFC pode ser gravado em codificações diferentes. Vale reconhecer as extensões:
.ifc: a mais comum. Texto puro, no formato STEP (ISO 10303-21). Você consegue abrir no bloco de notas e ler, o que é extremamente útil para diagnosticar problemas..ifcZIP: o mesmo arquivo compactado. Só isso. Chega bem menor por e-mail..ifcXML: codificação em XML. Arquivo bem maior, usado em trocas parciais e integrações.ifcJSON: codificação em JSON, voltada a aplicações web. É o caminho natural das ferramentas novas, inclusive das que usam IA.
Se alguém te mandar um .ifcZIP e você achar que não consegue abrir: consegue. É um zip.
MVD: o detalhe que decide se o seu IFC vai prestar
Se existe um conceito neste artigo que vale a pena guardar, é este. É também o campo que mais gente ignora na janela de exportação.
MVD (Model View Definition) é um recorte acordado do esquema IFC para um uso específico. O IFC completo é enorme e descreve muito mais do que qualquer troca real precisa. O MVD define o que precisa estar presente, o que fica de fora e como os conceitos são aplicados naquele tipo de entrega.
Na janela de exportação do Archicad, os três que você mais vai ver:
- IFC2x3 Coordination View: a mais implementada de todas. Pensada para compartilhar o modelo entre arquitetura, estrutura e instalações: estrutura espacial, elementos construtivos e elementos de sistemas prediais. É o padrão da coordenação clássica.
- IFC4 Reference View: pensada para fluxos de modelo de referência, com a troca em um sentido só. Na exportação, ela simplifica: conexões entre paredes e vigas encadeadas são omitidas. É ótima para visualizar, coordenar e detectar interferência; ruim para quem esperava editar.
- IFC4 Design Transfer View: permite edição limitada dos elementos do outro lado: inserir, apagar, mover e modificar elementos e ambientes. É a escolha quando o arquiteto entrega dado de projeto para o engenheiro trabalhar em cima. Mesmo assim, não é feita para ida e volta.
A regra prática. Modelo para coordenar e conferir: Reference View. Modelo para o outro continuar projetando: Design Transfer View. Na dúvida, ou com destinatário desconhecido: IFC2x3 Coordination View.
O que costuma dar errado, e o que causa
Cinco problemas explicam quase toda reclamação de IFC que chega até nós.
1. Os elementos chegam sem classificação
A parede exportada como sólido genérico não é falha do IFC; é elemento modelado com a ferramenta errada, ou com o mapeamento de classe errado. Objeto modelado como Morph vira geometria sem significado, a não ser que alguém o classifique explicitamente. Vale a regra: cada elemento precisa ser o que ele é antes de virar IFC.
2. Chega geometria, mas não chega informação
As propriedades (os property sets, ou psets) são o que transforma o modelo em base de dados. Se ninguém definiu o que exportar, sai um modelo bonito e mudo. E aqui vale a inversão de expectativa: informação a mais não é qualidade, é peso. A pergunta certa é quem vai usar esse dado do outro lado, e essa é exatamente a lógica de nível de informação necessária que a ISO 19650 organiza.
3. O modelo abre longe da origem, ou torto
Origem do projeto, norte e coordenadas precisam ser definidos e combinados antes da primeira exportação. Quando cada disciplina define a sua, a federação do modelo não fecha e o problema só aparece na coordenação, tarde.
4. Cada nova exportação vira um modelo "novo"
Todo elemento IFC tem um identificador único, o GUID. Quando ele se mantém estável entre versões, a ferramenta de coordenação consegue dizer o que mudou de uma entrega para a outra. Quando não se mantém, cada rodada parece um modelo inteiro novo e o histórico de comentários se perde.
5. Cada disciplina exporta de um jeito diferente
Este não é problema técnico, é de processo. Sem um acordo escrito de versão, MVD, propriedades e nomenclatura, toda entrega é uma negociação nova. Esse acordo é o Plano de Execução BIM, e ele é a diferença entre coordenar e improvisar.
O ecossistema em volta do IFC
O IFC não trabalha sozinho. Três padrões abertos da buildingSMART que aparecem junto e vale conhecer pelo nome:
- IDS (Information Delivery Specification), publicado como padrão final na versão 1.0 em junho de 2024. É um arquivo que descreve, de forma legível por máquina, o que precisa estar no modelo: quais objetos, com quais propriedades, em quais faixas de valor. Com ele, a verificação deixa de ser conferência visual e passa a ser automática. É o padrão mais importante dos últimos anos para escritório, porque transforma requisito em teste.
- BCF (BIM Collaboration Format), criado em 2009. Transporta o problema, não o modelo: um comentário amarrado a um ponto de vista, a uma imagem e ao GUID do elemento. É o que substitui o PDF com nuvenzinha vermelha.
- bSDD, o dicionário de dados da buildingSMART, que padroniza classificações e propriedades entre países e sistemas.
IFC no Brasil
Dois fatos objetivos para quem precisa argumentar com cliente ou responder edital.
A norma existe em português: ABNT NBR ISO 16739-1, publicada em 29 de dezembro de 2023.
Um detalhe que quase todo conteúdo brasileiro erra. O Decreto nº 10.306/2020, que operacionaliza a Estratégia BIM BR, determina a disponibilização dos arquivos eletrônicos com os modelos e documentos técnicos em formato aberto (não proprietário), além dos formatos que o contratante especificar. O decreto não cita a sigla IFC. Ele exige formato aberto. Acontece que, para modelo BIM, o formato aberto do setor, normatizado pela ISO e adotado pela ABNT, é o IFC. Na prática, os cadernos de requisitos técnicos dos órgãos que contratam em BIM pedem IFC nominalmente.
Se o seu escritório atende, ou pretende atender, obra pública ou incorporadora de grande porte, entregar IFC organizado deixou de ser diferencial e virou requisito de entrada.
Um checklist de exportação que resolve a maior parte dos casos
Antes de mandar o arquivo:
- Combine a versão e o MVD com quem vai receber. Uma pergunta por e-mail economiza dois dias.
- Confira se cada elemento está classificado como o que é. Sólidos genéricos são o defeito número um.
- Defina origem, norte e coordenadas antes da primeira entrega, não depois.
- Escolha quais propriedades exportar, em vez de exportar tudo ou nada.
- Abra o IFC que você acabou de gerar em um visualizador gratuito (BIMcollab Zoom, usBIM.viewer, Solibri Anywhere) antes de enviar. Você vê o que o outro vai ver. Esse passo sozinho evita a maioria dos e-mails de volta.
- Salve as configurações de exportação como um perfil no template do escritório. Enquanto cada arquiteto exporta do jeito dele, o resultado é imprevisível por definição.
O passo 6 é o que separa escritório que sofre com IFC de escritório que não pensa mais nisso. Configuração de exportação é patrimônio do escritório, não conhecimento pessoal de quem aprendeu primeiro.
O ponto final
O IFC não é perfeito e não resolve processo ruim. Ele é um idioma comum, e idioma comum só funciona quando as duas partes combinam o assunto antes de falar.
A maior parte dos problemas que vemos em implementação não é o arquivo: é que ninguém definiu qual versão, qual recorte, quais propriedades e para quem aquilo serve. Definido isso uma vez, escrito no template e no plano de execução, o IFC some da lista de preocupações do escritório. E era esse o objetivo desde o começo.
Perguntas frequentes
O que significa IFC?
Industry Foundation Classes. É um esquema de dados aberto e neutro para informação de edificações e obras de infraestrutura, mantido pela buildingSMART International e normatizado como ISO 16739-1:2024. No Brasil, existe como ABNT NBR ISO 16739-1.
Qual a diferença entre IFC e o arquivo nativo do software?
O arquivo nativo é o arquivo de trabalho, com toda a parametria do software. O IFC é a entrega: uma descrição estruturada do que foi projetado, legível por qualquer software que siga o padrão. Um não substitui o outro.
Dá para editar um IFC e devolver para quem mandou?
Não é para isso que ele serve. O IFC não foi projetado para ida e volta (round-trip). Existe edição limitada no IFC4 Design Transfer View, mas a documentação oficial é explícita em dizer que não é um cenário de ida e volta. O modelo nativo continua sendo a fonte.
Qual versão do IFC devo usar?
A que o destinatário conseguir ler bem. Na dúvida ou sem informação, IFC2x3 Coordination View ainda é a aposta mais segura, por ser a implementação mais madura. IFC4.3 é a versão atual da norma e é o caminho para infraestrutura.
O Archicad exporta IFC?
Sim. A documentação oficial do Archicad 29 confirma importação e exportação em IFC2x3, IFC4 e IFC4.3, com configurações de tradutor que definem MVD, mapeamento de classes e propriedades exportadas.
Por que meu IFC abre sem informação nenhuma?
Porque a informação é exportada pelas configurações do tradutor. Se ninguém definiu quais propriedades devem sair, sai só a geometria. É configuração, não limitação do formato.
IFC é obrigatório no Brasil?
O Decreto nº 10.306/2020 exige, nas contratações públicas federais que ele alcança, a entrega dos arquivos em formato aberto (não proprietário), sem citar a sigla IFC no texto. Na prática, para modelo BIM, esse formato aberto é o IFC, e os cadernos técnicos dos órgãos o pedem nominalmente.
Fontes
- buildingSMART Technical, Industry Foundation Classes (IFC) e IFC Schema Specifications, com as versões, datas e normas ISO correspondentes.
- ISO 16739-1:2024, edição 2, publicada em março de 2024.
- buildingSMART International, IFC 4.3 approved as a final standard.
- buildingSMART, Learn IFC 5 with us, sobre a fase alpha do IFC5.
- ABNT NBR ISO 16739-1, publicada em 29 de dezembro de 2023. Registro no catálogo Target.
- buildingSMART Technical, Model View Definitions (MVD).
- Graphisoft Help, Model View Definitions e Working with IFC (Archicad 29).
- buildingSMART Technical, Information Delivery Specification (IDS) e BIM Collaboration Format (BCF).
- Decreto nº 10.306/2020, art. 6º, inciso II.
Gabriela Zanin
Fundadora da Migra BIM
Gabriela Zanin é arquiteta e fundadora da Migra BIM, empresa de implementação, treinamento e consultoria de Archicad. Já participou da implementação de BIM em mais de 200 escritórios de arquitetura no Brasil e em Portugal. Conheça a Migra.
Publicado em 23 de setembro de 2026 · Atualizado em 23 de setembro de 2026
