As duas ferramentas fazem BIM de verdade. A diferença que importa não está na lista de recursos, e sim em como o seu escritório trabalha.
A pergunta que quase todo escritório faz errado
Quando um escritório decide migrar para BIM, a primeira pergunta quase sempre é "Archicad ou Revit?". É uma pergunta legítima, mas ela costuma vir antes da hora, e por isso costuma ser respondida do jeito errado: pelo que o vizinho usa, pelo software que o estagiário conhece ou por uma lista de recursos que ninguém vai usar no primeiro ano.
Depois de implementar BIM em mais de 200 escritórios brasileiros, a gente aprendeu uma coisa desconfortável: a escolha do software responde por uma parte pequena do resultado. Escritório que escolhe "o software certo" e implementa mal fica com um CAD 3D caro. Escritório que escolhe uma ferramenta razoável e implementa bem entrega projeto melhor em menos tempo.
Dito isso, a escolha existe e tem consequências reais. Este artigo explica quais são, com dados verificáveis, e termina com um método simples para você decidir.
Resposta curta. Archicad tende a ser a melhor escolha para escritórios de arquitetura e interiores que querem produtividade rápida na modelagem e documentação, trabalham em Mac ou em equipes mistas, e terceirizam as disciplinas complementares.
Revit tende a ser a melhor escolha para escritórios que modelam estrutura e instalações internamente, trabalham dentro de contratos que exigem entrega em arquivo nativo Autodesk, ou fazem parte de um ecossistema corporativo já padronizado na Autodesk.
Nos dois casos, o que define o resultado é a implementação, não a marca.
O que Archicad e Revit têm em comum (e por que isso importa)
Antes das diferenças, vale eliminar a parte da discussão que é ruído.
As duas são plataformas BIM completas. Modelam por objetos com informação, geram documentação a partir do modelo, extraem quantitativos, controlam revisões e trabalham em equipe com modelo compartilhado.
As duas são certificadas em IFC4. A buildingSMART International mantém a lista pública de softwares certificados, e tanto o Archicad quanto o Revit têm certificação concluída de importação e exportação no IFC4 Architectural Reference Exchange. Na prática: os dois conversam entre si e com o resto do mercado por um formato aberto e auditável.
As duas atendem às exigências brasileiras. O Decreto 10.306/2020 define as fases de obrigatoriedade do BIM em obras públicas federais (1ª fase em janeiro de 2021, 2ª fase em janeiro de 2024, 3ª fase em janeiro de 2028) e, no artigo 6º, inciso II, exige que os arquivos sejam disponibilizados em formato aberto, não proprietário, além de qualquer outro formato que o edital pedir. O decreto não nomeia o IFC, mas é ele o formato aberto consolidado para modelos BIM, e é o que costuma aparecer nos editais. As normas ABNT NBR ISO 19650-1 e 19650-2, publicadas em 2022, tratam de gestão da informação e também são agnósticas de software.
As duas são vendidas por assinatura. Nenhuma das duas tem licença perpétua para compra nova hoje.
Ou seja: não existe "software que é BIM de verdade" e "software que não é". Quem disser isso está vendendo alguma coisa.
Onde os dois realmente diferem
1. Sistema operacional: a diferença mais concreta de todas
Archicad roda nativamente em Windows e macOS. Revit roda só em Windows. Os requisitos oficiais de sistema do Revit 2027 listam Windows 11 de 64 bits e, para computadores Apple, indicam o Parallels Desktop, ou seja, virtualização, não suporte nativo.
Para um escritório de arquitetura brasileiro isso raramente é detalhe. Muitos escritórios de arquitetura e interiores são majoritariamente Mac. Migrar para Revit nesse cenário significa comprar máquinas novas, manter uma camada de virtualização ou conviver com dois parques de equipamento. É custo real que não aparece na tabela de preço do software.
2. Lógica de modelagem e curva de aprendizado
Archicad foi desenhado desde a origem em torno do edifício e do fluxo de trabalho do arquiteto. Elementos construtivos, documentação e apresentação estão no mesmo ambiente, e a modelagem tende a exigir menos preparação antes de produzir algo útil.
Revit é uma plataforma multidisciplinar, construída em torno do conceito de famílias: quase tudo que não é parede, piso ou laje passa por um editor separado, com uma lógica própria. Isso dá um poder de parametrização enorme, e cobra esse poder em tempo de aprendizado e em dependência de alguém que domine o editor de famílias.
No Archicad, o equivalente são os objetos GDL, que também exigem conhecimento específico para casos sob medida, mas concentram menos do trabalho cotidiano. Na média dos escritórios que acompanhamos, a equipe chega antes a um nível produtivo no Archicad. Isso não é um julgamento de qualidade das ferramentas: é o efeito de uma ser especializada em arquitetura e a outra ser generalista.
3. Escopo de disciplinas: o ponto mais decisivo
Aqui está a diferença que costuma resolver a dúvida.
Se o seu escritório modela estrutura e instalações internamente, o Revit tem o ecossistema mais maduro: análise estrutural, detalhamento de armaduras, sistemas hidráulicos e HVAC em ambiente único, além de toda a cadeia de coordenação da Autodesk em volta.
Se o seu escritório faz arquitetura e interiores e recebe as disciplinas complementares de projetistas externos, que é o caso da maior parte dos escritórios brasileiros de médio e grande porte, essa vantagem do Revit deixa de ser vantagem. A coordenação acontece por IFC ou em plataforma de compatibilização, independentemente do software em que cada um modelou.
O Archicad também avançou nesse território: o MEP Designer entrou com destaque no Archicad 29, em outubro de 2025, com ferramentas de modelagem, cálculo e documentação de sistemas prediais. Ainda assim, seria desonesto dizer que ele cobre o mesmo escopo de engenharia estrutural pesada que a plataforma da Autodesk cobre. Não é para isso que ele foi feito.
4. Mercado, equipe e parceiros
Este é o argumento mais forte a favor do Revit no Brasil, e ele não é técnico: é de ecossistema. A cadeia de engenharia, construtoras e projetistas complementares gravita fortemente em torno da Autodesk. Isso significa mais profissionais com Revit no currículo, mais material em português e mais chance de um contratante exigir entrega em arquivo nativo .rvt.
Três ressalvas honestas sobre esse argumento:
- Exigência de arquivo nativo é contratual, não técnica. Vale verificar caso a caso, porque em muitos contratos o que se pede de fato é o modelo federado e o IFC.
- Contratar "quem já sabe Revit" não resolve implementação. Profissional que aprendeu Revit sozinho em escritório sem padrão costuma trazer o vício, não o método.
- A escassez de mão de obra em Archicad é menor do que parece no segmento de arquitetura e interiores, que é justamente onde ele é mais usado.
5. Custo e modelo de licenciamento
O Archicad é vendido hoje principalmente no plano Archicad Studio, que inclui Archicad, BIMx Pro e BIMcloud Basic. O preço de tabela internacional é de US$ 201 por mês, com pagamento anual antecipado de US$ 2.414 por licença. A Graphisoft encerrou a venda do Archicad Solo em 31 de dezembro de 2025 e migrou os assinantes para o Studio com preço escalonado de transição.
O Revit é vendido avulso por assinatura ou dentro da AEC Collection, que reúne Revit, AutoCAD, Navisworks, Forma e outros. Para escritórios que já usam vários produtos Autodesk, a coleção costuma ser o argumento comercial decisivo, porque dilui o custo do Revit entre ferramentas que o escritório usaria de qualquer jeito.
No Brasil, os dois são comercializados por revendas com condições, câmbio e descontos que mudam com frequência, então qualquer número específico que você leia num blog, inclusive neste, envelhece rápido. Peça proposta oficial antes de decidir por preço. O que vale registrar como princípio: as duas ficam na mesma ordem de grandeza, e a diferença de custo entre elas é quase sempre menor do que o custo de uma implementação malfeita.
6. Para onde cada uma está indo
As duas empresas estão apostando pesado em inteligência artificial dentro do ambiente de modelagem, e esse é um critério legítimo para quem decide hoje pensando em cinco anos.
- Revit 2027, lançado em 7 de abril de 2026, trouxe o Autodesk Assistant em tech preview, permitindo interagir com o modelo em linguagem natural, além de integração mais forte com o Forma e com o fluxo de coordenação na nuvem.
- Archicad 29 trouxe o AI Assistant embarcado, um chatbot de apoio dentro da janela do Archicad, e o Archicad 30 está previsto para o início de outubro de 2026, junto com a iniciativa Design Intelligence, a plataforma nativa em nuvem da Graphisoft.
Em resumo: nenhuma das duas está parada, e escolher uma hoje não é apostar contra a IA.
Os seis critérios, lado a lado
| Critério | Archicad | Revit |
|---|---|---|
| Sistema operacional | Windows e macOS, nativo | Só Windows; Apple via virtualização |
| Curva de aprendizado | Equipe chega antes ao nível produtivo | Mais poder de parametrização, mais tempo até produzir |
| Disciplinas | Arquitetura e interiores; MEP Designer desde a versão 29 | Estrutura e instalações no mesmo ambiente |
| Mercado brasileiro | Forte em arquitetura e interiores | Forte na cadeia de engenharia e construção |
| Custo | Plano Studio, US$ 2.414 por ano por licença (tabela internacional) | Avulso ou dentro da AEC Collection |
| Para onde vai | AI Assistant na versão 29; versão 30 e Design Intelligence em outubro de 2026 | Autodesk Assistant em tech preview na versão 2027 |
Três mitos que atrapalham a decisão
"Archicad e Revit não conversam." Conversam. Os dois são certificados em IFC4 pela buildingSMART, e o IFC é justamente o formato exigido pelo decreto brasileiro para entregas públicas. O que existe são perdas de informação quando a troca é feita sem padrão definido, e isso acontece igual entre dois escritórios que usam o mesmo software.
"Revit é mais BIM porque é mais usado." Popularidade não é qualificação técnica. É um fator legítimo de decisão, por causa do ecossistema, da contratação e da exigência contratual, mas é um argumento de mercado, não de metodologia.
"A escolha é irreversível." Não é, e a gente já acompanhou escritórios fazendo o caminho nos dois sentidos. O que é caro não é trocar de software: é trocar de software sem ter padrão, template e biblioteca, porque aí o escritório recomeça do zero pela segunda vez.
Como decidir na prática: seis perguntas
Responda estas seis perguntas antes de olhar qualquer proposta comercial. Elas resolvem a dúvida na maioria dos casos.
- O escritório é Mac, Windows ou misto? Se for Mac, Revit implica virtualização ou troca de parque.
- Quem modela estrutura e instalações? Se for internamente, Revit ganha peso. Se for terceirizado, esse critério praticamente some.
- Algum cliente ou contrato exige arquivo nativo? Verifique se a exigência é nativa mesmo ou se IFC atende.
- Qual é o tipo de projeto dominante? Residencial, interiores, paisagismo e retrofit puxam para Archicad. Infraestrutura, industrial e grandes obras com coordenação Autodesk puxam para Revit.
- Quem vai liderar a mudança dentro do escritório? Se não houver alguém com tempo e autoridade para isso, o problema não é o software.
- Que outras ferramentas Autodesk vocês já pagam? Se já houver várias, a AEC Collection muda a conta.
| Cenário do escritório | Tende a favorecer |
|---|---|
| Arquitetura e interiores, equipe em Mac, complementares terceirizados | Archicad |
| Equipe pequena que precisa produzir rápido, com pouca estrutura interna de TI | Archicad |
| Foco em apresentação e aprovação com cliente ao longo do projeto | Archicad (o BIMx pesa aqui) |
| Estrutura e instalações modeladas internamente | Revit |
Contratos públicos ou corporativos que exigem .rvt | Revit |
| Escritório já assinante de várias ferramentas Autodesk | Revit, via AEC Collection |
| Projetos de infraestrutura ou industrial | Revit |
| Escritório sem padrão, template ou processo definido | Nenhum dos dois resolve sozinho |
O que de fato decide o resultado
Vale repetir a última linha da tabela, porque ela é a parte mais importante deste artigo: escritório sem padrão não é salvo por software nenhum.
Em mais de 200 implementações, os fracassos que a gente viu quase nunca vieram da escolha da ferramenta. Vieram de: não existir template consistente, cada arquiteto nomear as coisas do seu jeito, a biblioteca de objetos não refletir o que o escritório de fato especifica, o treinamento ensinar comandos em vez de método, e não haver ninguém responsável por manter o padrão vivo depois que o consultor vai embora. Se você quiser ver essa lista inteira, escrevi sobre ela em erros comuns na implementação de BIM.
Se o seu escritório está nesse ponto, a pergunta "Archicad ou Revit" é a segunda pergunta. A primeira é como você vai reorganizar a forma de trabalhar, e qualquer das duas ferramentas pode sustentar isso, desde que a decisão seja seguida de um processo. Na prática, isso costuma passar por três frentes: a implementação em si, o template do escritório e o treinamento da equipe.
Perguntas frequentes
Archicad e Revit abrem o arquivo um do outro?
Não diretamente no formato nativo, mas os dois são certificados pela buildingSMART em importação e exportação de IFC4, que é o formato aberto usado para troca entre plataformas BIM e o padrão de mercado para as entregas em formato aberto que o Decreto 10.306/2020 exige nas obras públicas federais.
Archicad roda em Mac?
Sim, nativamente em macOS e Windows. O Revit roda apenas em Windows; os requisitos oficiais da Autodesk indicam Parallels Desktop para usuários Apple, ou seja, virtualização.
Qual é mais fácil de aprender?
Na experiência prática com escritórios de arquitetura e interiores, o Archicad costuma levar a equipe a um nível produtivo em menos tempo, principalmente por não depender do editor de famílias para boa parte do trabalho cotidiano. Isso varia com o repertório da equipe e, sobretudo, com a qualidade do treinamento.
Qual é mais barato?
Os dois ficam na mesma ordem de grandeza e são vendidos por assinatura. O plano Archicad Studio tem preço de tabela internacional de US$ 2.414 por ano por licença. O Revit é vendido avulso ou dentro da AEC Collection, e para quem já usa outras ferramentas Autodesk a coleção muda bastante a conta. No Brasil, peça proposta oficial: câmbio e condições de revenda mudam com frequência.
Dá para trocar de software depois?
Dá, e não é raro. O custo maior da troca não é o software: é refazer template, biblioteca e padrão de trabalho, que é exatamente o que a maioria dos escritórios não tem documentado.
Meu escritório precisa de Archicad ou Revit para atender o Decreto BIM?
Nenhum dos dois é exigido nominalmente. O decreto trata de metodologia e exige, entre outros itens, a entrega dos arquivos em formato aberto, não proprietário, o que na prática significa IFC. Os dois softwares atendem.
Fontes
- buildingSMART International, lista pública de participantes da certificação IFC (Archicad e Revit, IFC4 Architectural Reference Exchange).
- Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020, Presidência da República.
- Autodesk, requisitos de sistema do Revit 2027.
- Autodesk, novidades do Revit 2027, 7 de abril de 2026.
- Graphisoft, página oficial do Archicad Studio.
- Graphisoft Community, transição do Archicad Solo para o Archicad Studio.
- Graphisoft Community, novidades do Archicad 29 e cronograma de lançamentos 2026.
- ABNT NBR ISO 19650-1:2022 e ABNT NBR ISO 19650-2:2022.
Gabriela Zanin
Fundadora da Migra BIM
Gabriela Zanin é arquiteta e fundadora da Migra BIM, empresa de implementação, treinamento e consultoria de Archicad. Já participou da implementação de BIM em mais de 200 escritórios de arquitetura no Brasil e em Portugal. Conheça a Migra.
Publicado em 16 de setembro de 2026 · Atualizado em 16 de setembro de 2026

