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O que você precisa saber sobre a ISO 19650

Gabriela Zanin, fundadora da Migra BIM

A norma que organiza a informação em BIM assusta pelo nome e pela linguagem, mas o que ela pede é, no fundo, o que todo escritório bem organizado já deveria fazer.

Em algum momento a sigla aparece: num edital, num contrato com incorporadora, num pedido de proposta que exige "conformidade com a ISO 19650". Aí começa a corrida para entender o que é aquilo, e a primeira leitura da norma costuma piorar o quadro, porque o texto é escrito na linguagem seca de comitê técnico, cheia de termos que ninguém usa no dia a dia de escritório.

A boa notícia é que o conteúdo é mais simples do que a forma. A ISO 19650 não inventa um jeito novo de projetar. Ela organiza uma coisa só: quem produz qual informação, em que formato, em que momento e onde essa informação fica. Se você entender essa frase, entendeu o essencial da série.

O que a ISO 19650 é

É uma série de normas internacionais sobre gestão da informação em empreendimentos de edificação e infraestrutura, usando BIM. O nome completo da parte 1 diz exatamente isso: organização e digitalização da informação sobre edificações e obras de engenharia civil, incluindo modelagem da informação da construção.

Repare no que está no centro: informação. Não modelo, não software, não 3D. A ISO 19650 trata o modelo como um recipiente de informação e se ocupa das regras de como essa informação nasce, circula, é aprovada e é entregue.

Ela nasceu da experiência britânica. O Reino Unido tinha a BS 1192 e a série PAS 1192, desenvolvidas ao longo da década de 2010 para viabilizar o mandato de BIM em obras públicas de lá. Quando aquilo amadureceu, virou norma internacional: as partes 1 e 2 da ISO 19650 foram publicadas em dezembro de 2018.

O que a ISO 19650 não é

Vale explicitar, porque quase toda confusão vem daqui:

  • Não é um manual de software. Ela não cita Archicad, Revit ou qualquer outro, e não diz como modelar uma parede.
  • Não é obrigatória por si só. Norma técnica não é lei. Ela se torna obrigatória quando um contrato ou um edital a exige, e isso vem acontecendo cada vez mais.
  • Não é sinônimo de BIM. BIM é o processo. A ISO 19650 é a forma padronizada de gerir a informação dentro dele.
  • Não exige certificação para ser usada. Existem esquemas de certificação de terceiros, como o Kitemark do BSI britânico, adotado por algumas empresas e por alguns fabricantes de software, mas nenhum escritório precisa de selo para trabalhar conforme a norma.

As partes da série

ParteAssuntoPublicação
19650-1Conceitos e princípios2018
19650-2Fase de entrega dos ativos (projeto e obra)2018
19650-3Fase operacional dos ativos2020
19650-4Troca de informações2022
19650-5Abordagem voltada à segurança da informação2020
19650-6Informação de saúde e segurança2025

Para um escritório de arquitetura, o que importa de verdade são as partes 1 e 2. A parte 1 dá o vocabulário e os conceitos. A parte 2 descreve o processo da fase de projeto e obra, que é onde o escritório vive.

A ISO 19650 no Brasil

A ABNT publicou as versões brasileiras das partes 1 e 2 em 27 de maio de 2022, como ABNT NBR ISO 19650-1:2022 e ABNT NBR ISO 19650-2:2022. Outras partes da série também já têm versão nacional. Isso é mais relevante do que parece: significa que a norma está em português, com terminologia traduzida, e pode ser citada diretamente em contrato no Brasil.

No setor público, o caminho já está aberto. O Decreto nº 10.306/2020, que integra a Estratégia BIM BR (Decreto nº 9.983/2019), estabeleceu o uso do BIM em obras contratadas pela administração pública federal em fases sucessivas, a partir de 2021, 2024 e 2028. E os órgãos que contratam em BIM adotam a ISO 19650 como espinha dorsal: o Caderno de Requisitos Técnicos BIM do DNIT, por exemplo, cita as ABNT NBR ISO 19650-1 e 19650-2 como normas orientadoras e estrutura seus próprios requisitos de informação e seu ambiente comum de dados a partir delas.

Escritório de arquitetura privada não é alcançado diretamente por nenhum desses decretos. Mas trabalha com quem é.

Os cinco conceitos que resolvem 90% do entendimento

1. Os papéis: quem pede, quem lidera, quem entrega

A norma usa três papéis em vez de "cliente", "projetista" e "consultor":

  • Contratante (appointing party): quem pede a informação e define os requisitos. Normalmente o cliente ou o dono do empreendimento.
  • Contratado principal (lead appointed party): quem lidera a entrega de informação e coordena os demais. Em muitos projetos de arquitetura, é o escritório de arquitetura.
  • Contratado (appointed party): quem entrega a informação do próprio escopo. Estrutural, instalações, paisagismo, luminotécnico.

O ponto que a norma faz aqui é sutil e importante: os papéis são por contrato, não por profissão. O mesmo escritório pode ser contratado principal num projeto e contratado em outro, com obrigações de informação diferentes em cada um.

2. Requisitos de informação: para que serve o que você está modelando

Essa é a ideia central da norma, e é uma cascata. Ela começa na necessidade de quem vai usar a informação e desce até o que precisa estar no modelo.

A cascata de requisitos de informação

OIR Requisitos de informação da organização O que a empresa contratante precisa saber para tocar o negócio dela.
AIR Requisitos de informação do ativo O que ela precisa saber para operar e manter o edifício depois de pronto.
PIR Requisitos de informação do empreendimento O que ela precisa saber para decidir durante o projeto e a obra.
EIR Requisitos de troca de informação O que precisa ser entregue, por quem, quando e em que formato. É o documento que chega até você.
PIM Modelo de informação do empreendimento Produzido durante projeto e obra.
AIM Modelo de informação do ativo O que sobrevive à entrega e passa a servir à operação.

Traduzindo para a prática do escritório: alguém, em algum lugar, vai usar aquele dado. A norma existe para que você saiba quem é esse alguém antes de decidir o que modelar.

3. O Plano de Execução BIM

O PEB é o documento em que a equipe responde ao EIR. Ele diz como a informação vai ser produzida: quem faz o quê, em que prazos, com que padrões de nomenclatura, em que formatos de troca, com que nível de detalhamento por etapa.

A parte 2 prevê o PEB em dois momentos, o que quase ninguém percebe na primeira leitura: existe uma versão pré-contratual, apresentada na resposta à proposta, e uma versão confirmada, ajustada depois que a equipe está contratada e reunida. Junto com ele vêm os planos de entrega de informação, que detalham as datas de cada entrega por tarefa.

Se você já leu nosso artigo sobre erros comuns na implementação de BIM, esse é o documento que faz o erro número 2 deixar de existir.

4. O Ambiente Comum de Dados (CDE)

É a fonte única de informação do empreendimento. Não é necessariamente uma plataforma cara: é um ambiente acordado, com regras, em que cada arquivo tem identificação única, versão, e um estado que diz o que se pode fazer com ele.

Os quatro estados de um arquivo no ambiente comum de dados

Trabalho em andamento Informação ainda sendo produzida por uma equipe, não visível às demais.
Compartilhado Liberada para as outras equipes usarem como referência, mas ainda não aprovada.
Publicado Aprovada pelo contratante para uso, construção ou decisão.
Arquivo Registro histórico do que foi compartilhado e publicado, com rastreabilidade.

Esse é o conceito com o efeito mais imediato no dia a dia. Ele acaba com o "manda a última versão por WhatsApp" e com a dúvida crônica sobre qual arquivo vale.

Um detalhe que quase todo conteúdo brasileiro erra. Aquela convenção de nomenclatura famosa, com campos de projeto, originador, volume, nível, tipo, disciplina e número, não está no corpo da ISO 19650. Ela vem do anexo nacional britânico da norma.

O que a ISO exige é que exista um padrão de nomenclatura acordado no empreendimento, não esse padrão específico. Ou seja: você pode adotar o britânico, ou pode definir o seu, desde que ele seja consistente e esteja no Plano de Execução BIM.

5. Nível de informação necessária

A norma substituiu a lógica de "nível de detalhamento" por nível de informação necessária (level of information need), detalhada na norma europeia EN 17412-1. A diferença não é semântica: em vez de escolher um LOD numa tabela pronta, você define quanta informação geométrica, alfanumérica e de documentação cada elemento precisa carregar para atender a um propósito específico, numa entrega específica.

O princípio, que vale repetir: informação a mais é custo, não é qualidade.

O processo da parte 2, em uma passada

A parte 2 organiza a fase de projeto e obra em oito atividades encadeadas: avaliação e necessidade, convite à proposta, resposta à proposta, contratação, mobilização, produção colaborativa de informação, entrega do modelo de informação e encerramento do empreendimento.

Não é preciso decorar. O que importa é notar que metade do processo acontece antes de alguém abrir o software. Requisito, proposta, contrato e mobilização vêm primeiro. É exatamente o contrário do que acontece na maioria dos escritórios, onde a modelagem começa na segunda-feira e as regras vão sendo inventadas no caminho.

A norma está mudando

As partes 1, 2 e 3 estão em revisão, a primeira desde as edições originais de 2018 e 2020. Os textos em consulta pública circularam em 2026 e a publicação das novas edições é esperada entre o fim de 2026 e 2027.

A mudança estrutural anunciada é relevante: o processo das partes 2 e 3 tende a ser unificado num processo único de ciclo de vida, apagando a separação entre fase de entrega e fase operacional, e a parte 3 tende a virar orientação de implementação. Até lá, as edições atuais continuam válidas e continuam sendo o que os contratos citam.

Não há motivo para esperar a revisão para começar. Nada do que está descrito acima vai deixar de existir.

O que isso muda no seu escritório, na prática

Se o seu escritório não atende obra pública nem incorporadora grande, a ISO 19650 pode parecer distante. Não é. Ela é o melhor manual gratuito de organização que existe, e três coisas dela funcionam mesmo num escritório de dez pessoas:

  1. Padrão de nomenclatura e estrutura de pastas escritos, não combinados de boca. Isso vive no template do escritório, não na cabeça de cada arquiteto.
  2. Estados de arquivo. Mesmo sem plataforma, dá para separar o que está em produção do que foi compartilhado e do que foi aprovado, e isso resolve a maior parte dos retrabalhos por versão errada.
  3. Definir o propósito da informação antes de modelar. Isso é o que impede a equipe de detalhar rodapé em estudo preliminar.

E se o seu escritório atende, ou pretende atender, clientes que exigem conformidade, a leitura muda: o EIR vai chegar, e alguém vai precisar responder com um PEB coerente. Escritório que não tem padrão próprio responde a esse documento com uma promessa que não consegue cumprir.

Por onde começar

Na ordem em que realmente funciona:

  1. Leia a parte 1 inteira. São conceitos, e é a parte curta.
  2. Confira como o escritório nomeia arquivos e organiza pastas hoje, e escreva o padrão que vocês já usam, com defeitos e tudo. Você precisa saber de onde está saindo.
  3. Escolha um projeto para aplicar os quatro estados de arquivo, mesmo que na pasta de rede.
  4. Só depois disso pense em plataforma de CDE. Ferramenta sem regra acordada vira mais um lugar para perder arquivo.

A ISO 19650 não vai deixar o seu escritório mais burocrático. Ela vai deixar explícito o que hoje está implícito, e é o implícito que gera retrabalho.

Perguntas frequentes

A ISO 19650 é obrigatória no Brasil?

Não por si só. Norma técnica não é lei. Ela passa a ser obrigatória quando um contrato ou um edital exige conformidade, o que é cada vez mais comum em obras públicas e em contratos com incorporadoras e construtoras de grande porte.

Qual a diferença entre ISO 19650 e ABNT NBR ISO 19650?

É a mesma norma. A ABNT NBR ISO 19650 é a versão brasileira, traduzida e adotada pela ABNT. As partes 1 e 2 foram publicadas em português em maio de 2022.

Preciso de um software específico para atender à ISO 19650?

Não. A norma não cita nenhum software e não exige plataforma específica. Ela exige processo acordado, padrão de nomenclatura, controle de versão e estados de informação. Isso pode começar numa pasta de rede bem organizada.

Meu escritório precisa de certificação ISO 19650?

Não para trabalhar conforme a norma. Existem esquemas de certificação de terceiros no exterior, adotados principalmente por grandes empresas e por fabricantes de software, mas eles não são pré-requisito para atender a um contrato que cite a norma.

Qual a diferença entre EIR e PEB?

O EIR é o que o contratante pede. O PEB é como a equipe responde. Um é requisito, o outro é plano.

Vale a pena estudar a norma agora, se ela está em revisão?

Vale. As edições atuais continuam válidas e são as citadas nos contratos de hoje. A revisão reorganiza a estrutura, mas não elimina nenhum dos conceitos centrais.

Fontes

  1. ISO 19650-1:2018, Concepts and principles, e ISO 19650-2:2018, Delivery phase of the assets.
  2. ABNT NBR ISO 19650-1:2022 e ABNT NBR ISO 19650-2:2022, publicadas em 27 de maio de 2022. CBIC, Boletim de Alterações de Normas Técnicas.
  3. DNIT, Caderno de Requisitos Técnicos BIM.
  4. Decreto nº 10.306/2020 e Decreto nº 9.983/2019, Estratégia BIM BR.
  5. Opera Academy, ISO 19650 Updates, sobre a revisão em curso.
  6. Plan.One, From LOD to LOIN, sobre nível de informação necessária e a EN 17412-1.
  7. Construction Management, BSI launches 19650 Kitemark.

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Gabriela Zanin, fundadora da Migra BIM

Gabriela Zanin

Fundadora da Migra BIM

Gabriela Zanin é arquiteta e fundadora da Migra BIM, empresa de implementação, treinamento e consultoria de Archicad. Já participou da implementação de BIM em mais de 200 escritórios de arquitetura no Brasil e em Portugal. Conheça a Migra.

Publicado em 9 de setembro de 2026 · Atualizado em 9 de setembro de 2026

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