Depois de mais de 200 escritórios implementados, os tropeços se repetem com uma regularidade quase previsível. Nenhum deles tem a ver com falta de talento da equipe.
Quase todo escritório que decide migrar para BIM começa pelo lugar errado: pela escolha do software. É compreensível, porque o software é a parte visível da mudança, é o que tem preço, demonstração e data de instalação. Só que BIM não é um programa, é um processo de gestão de informação, e é exatamente aí que a maioria das implementações trava.
A norma que rege o assunto deixa isso explícito. A ABNT NBR ISO 19650 trata de organização e digitalização da informação sobre edificações, incluindo a modelagem da informação da construção, e organiza a implementação em torno de requisitos de informação, plano de execução e um ambiente comum de dados. Software aparece como consequência, não como ponto de partida. Se a norma ainda é novidade para você, escrevi um artigo só sobre ela: o que você precisa saber sobre a ISO 19650.
A lista abaixo não é teórica. São os erros que mais aparecem quando um escritório nos procura depois de uma primeira tentativa frustrada de migrar, ou no diagnóstico inicial de quem está começando agora.
1. Tratar a migração como uma troca de software
O erro que origina quase todos os outros. O escritório compra as licenças, contrata um treinamento de comandos e espera que a equipe "aprenda o programa". Seis meses depois, os projetos continuam saindo do mesmo jeito, só que agora modelados em 3D.
Modelar em 3D não é BIM. BIM começa quando a informação do modelo passa a alimentar decisões: quantitativos, compatibilização entre disciplinas, documentação que se atualiza sozinha, dados que sobrevivem ao fim do projeto. Sem isso, o escritório pagou por uma ferramenta cara para fazer o que já fazia.
Como evitar. Antes de qualquer treinamento, defina para que o escritório quer o BIM. Quais entregas precisam melhorar? Onde está o retrabalho hoje? Que informação vocês perdem entre uma etapa e outra? A resposta a essas perguntas é o que determina como o modelo deve ser construído, e não o contrário.
2. Pular o diagnóstico do processo atual
Implementar BIM sobre um processo que ninguém mapeou é padronizar a confusão. Se o escritório não sabe, hoje, quem faz o quê, em que ordem, com que arquivo e com que critério de nomenclatura, ele vai levar essa indefinição para dentro do novo ambiente, agora com uma camada de tecnologia por cima.
A ISO 19650-2 estrutura o processo justamente a partir da definição de requisitos de informação e do Plano de Execução BIM, o documento que responde quem produz qual informação, quando, em que formato e com que nível de detalhamento. Não é burocracia de obra pública: é o que impede que cada arquiteto invente o próprio padrão.
Como evitar. Mapeie o fluxo real antes de propor o fluxo ideal. O ponto de partida é sempre como o escritório projeta hoje, com os vícios incluídos.
3. Implementar sem template do escritório
Este é o erro mais caro e o mais silencioso. Sem um template próprio, cada projeto nasce de um arquivo diferente, cada arquiteto cria as próprias camadas, materiais e pranchas, e o resultado é um escritório onde ninguém consegue abrir o arquivo do outro sem perder meia hora entendendo a lógica.
O template é o arquivo base que define como o escritório inteiro modela, documenta e automatiza: camadas, bibliotecas, materiais de construção, pranchas, tabelas e as tarefas repetitivas que passam a acontecer sozinhas. A própria Graphisoft trata padrões de escritório e template como um dos eixos centrais da função de BIM Manager no Archicad.
Como evitar. O template precisa existir antes de a equipe começar a produzir no novo ambiente, e precisa refletir o jeito que aquele escritório projeta. Template genérico baixado da internet resolve os primeiros dias e cria dívida técnica para os anos seguintes. Se o seu escritório já usa Archicad mas nunca padronizou, o caminho costuma ser desenvolver o template personalizado antes de qualquer outra coisa.
4. Treinar a equipe e não acompanhar o primeiro projeto real
Treinamento ensina o que a ferramenta faz. Projeto real ensina o que fazer quando o cliente muda o programa na semana da entrega, quando o consultor manda o arquivo em formato incompatível, quando o modelo fica pesado. É nesse momento que a equipe decide, sozinha, se mantém o padrão ou se volta a improvisar como fazia antes.
Quando não há acompanhamento, a decisão quase sempre é voltar ao improviso. Não por má vontade, mas porque prazo aperta e o caminho conhecido é mais rápido.
Como evitar. Planeje suporte próximo durante os primeiros projetos feitos inteiramente no novo processo. O objetivo não é resolver dúvidas de software, é impedir que o padrão se dissolva na primeira pressão de prazo.
5. Escolher o projeto errado para estrear
Muitos escritórios elegem como projeto-piloto o mais importante da carteira ("já que é pra valer, vamos fazer valer") ou o mais complexo ("se funcionar nesse, funciona em qualquer um"). Os dois são péssimas escolhas. O primeiro coloca o cliente mais sensível dentro da fase mais instável. O segundo empilha problemas de processo com problemas de projeto, e quando algo dá errado ninguém sabe qual dos dois causou.
Como evitar. Escolha um projeto de porte médio, com prazo realista, escopo conhecido e uma equipe pequena e disposta. A função do piloto é gerar aprendizado com risco controlado, não provar nada para ninguém.
6. Modelar mais do que o necessário
É o erro de quem se empolga. A equipe começa a detalhar parafuso, rodapé e rejunte em fase de estudo preliminar, o modelo fica lento, a produtividade despenca e a conclusão equivocada aparece rápido: "BIM é mais demorado".
A discussão de nível de desenvolvimento existe justamente para isso. A LOD Specification, publicada pelo BIMForum, é a referência mais usada internacionalmente para definir quanta informação um elemento precisa carregar em cada fase do projeto. O princípio é simples: informação só deve existir no modelo quando alguém for usá-la para alguma coisa.
Como evitar. Defina, por fase e por disciplina, qual o nível de detalhamento suficiente. Tudo além disso é custo sem retorno.
7. Deixar a liderança de fora e chamar a resistência de "problema da equipe"
Resistência é sintoma, não causa. Quando a equipe resiste, quase sempre é porque foi comunicada da mudança em vez de envolvida nela, porque não sabe qual é o objetivo, ou porque percebeu que a liderança não vai sustentar o processo quando o prazo apertar. Se o sócio continua pedindo o arquivo "do jeito antigo, que é mais rápido", a implementação acabou naquele dia, ainda que ninguém anuncie.
A própria CBIC aponta a resistência cultural do setor como uma das barreiras centrais à adoção do BIM no Brasil, ao lado do custo de software e da falta de capacitação. Trata-se de um problema de gestão da mudança, não de treinamento.
Como evitar. O alinhamento começa na liderança, antes de qualquer mudança chegar à equipe. Quem decide precisa saber o que vai piorar temporariamente, por quanto tempo, e o que ganha no fim. E precisa sustentar isso publicamente.
8. Esperar ganho imediato e desistir no meio da curva
Toda implementação tem um período em que a produtividade cai. A equipe está aprendendo ferramenta nova, processo novo e padrão novo ao mesmo tempo, enquanto continua entregando. Esse vale é normal, previsível e passageiro, mas se ninguém avisou que ele existe, ele é lido como fracasso, e é nesse ponto que a maioria das implementações é abandonada.
Como evitar. Trate a queda inicial como parte do plano, não como imprevisto. Combine com a equipe e com os sócios qual é a expectativa realista de cada trimestre, e meça o progresso por indicadores de processo (padrão sendo seguido, retrabalho caindo, documentação saindo do modelo) antes de cobrar indicadores de velocidade.
Um erro extra, que não é do escritório: achar que dá para adiar
O BIM deixou de ser diferencial competitivo e virou requisito em uma parte crescente do mercado. No setor público, o Decreto nº 10.306/2020 estabeleceu o uso do BIM em obras contratadas pela administração pública federal direta, autárquica e fundacional em fases sucessivas: a partir de janeiro de 2021 para elaboração de projetos de empreendimentos de grande relevância, a partir de janeiro de 2024 incluindo execução e gestão de obras, e a partir de janeiro de 2028 abrangendo também a fase de operação e manutenção, com escopo ampliado para empreendimentos de média ou grande relevância. O decreto integra a Estratégia BIM BR, instituída pelo Decreto nº 9.983/2019.
Escritórios de arquitetura privada não são alcançados diretamente pela norma, mas trabalham com incorporadoras, consultores e construtoras que já são. Quem chega depois costuma implementar sob pressão de contrato, que é a pior condição possível para fazer isso bem.
O denominador comum dos oito erros
Todos eles têm a mesma raiz: o escritório trata a implementação como um evento, e ela é um processo. Evento tem data de início e de fim, treinamento e certificado. Processo tem diagnóstico, padrão construído sob medida, acompanhamento em projeto real e ajuste ao longo do caminho.
É por isso que implementação de BIM bem-feita não é ensinar software. É aplicar conceitos de BIM ao jeito que aquele escritório, especificamente, já projeta.
Checklist rápido antes de começar
- Sabemos por que queremos BIM, em termos de entrega e de negócio, não de tecnologia
- Mapeamos como o escritório projeta hoje, com os problemas reais listados
- Definimos quem responde pelo padrão dentro do escritório
- Teremos um template próprio pronto antes de a equipe começar a produzir
- Escolhemos um projeto-piloto de risco controlado
- Definimos nível de detalhamento por fase
- A liderança está alinhada e vai sustentar o processo sob pressão de prazo
- Combinamos uma expectativa realista para os primeiros meses
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para implementar BIM em um escritório de arquitetura?
Depende do porte da equipe e do formato de implementação, mas é medido em meses, não em semanas. Na nossa experiência, um processo completo de implementação, incluindo diagnóstico, template, treinamento e acompanhamento em projeto real, costuma levar de 6 a 12 meses.
É possível implementar BIM sem parar a produção do escritório?
Sim, e é assim que deve ser feito. A implementação acontece em paralelo à operação, com dedicação planejada da equipe e ajustes combinados nos projetos em andamento.
Meu escritório já usa Archicad, mas sem padrão nenhum. É implementação ou template?
Nesse caso o caminho costuma ser o desenvolvimento de template, não a implementação completa. A ferramenta já está no escritório; o que falta é o padrão que faz ela render.
E se o problema for só um ponto específico do fluxo?
Aí o caminho costuma ser uma consultoria pontual, e não um processo completo de implementação. Diagnosticar isso antes de contratar economiza bastante dinheiro.
Qual o maior erro de todos?
Confundir software com processo. É o erro que produz todos os outros.
Fontes
- ABNT NBR ISO 19650-2:2022, gestão da informação usando a modelagem da informação da construção, fase de entrega dos ativos.
- Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020, fases de uso do BIM em obras públicas federais.
- Decreto nº 9.983, de 22 de agosto de 2019, Estratégia Nacional de Disseminação do BIM.
- CBIC, barreiras à adoção do BIM no Brasil, 22 de junho de 2022.
- Graphisoft, Archicad Office Standards and Templates.
- BIMForum, LOD Specification, referência internacional de nível de desenvolvimento por fase.
Gabriela Zanin
Fundadora da Migra BIM
Gabriela Zanin é arquiteta e fundadora da Migra BIM, empresa de implementação, treinamento e consultoria de Archicad. Já participou da implementação de BIM em mais de 200 escritórios de arquitetura no Brasil e em Portugal. Conheça a Migra.
Publicado em 26 de agosto de 2026 · Atualizado em 26 de agosto de 2026

