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Erros comuns na implementação de BIM e como evitá-los

Gabriela Zanin, fundadora da Migra BIM

Depois de mais de 200 escritórios implementados, os tropeços se repetem com uma regularidade quase previsível. Nenhum deles tem a ver com falta de talento da equipe.

Quase todo escritório que decide migrar para BIM começa pelo lugar errado: pela escolha do software. É compreensível, porque o software é a parte visível da mudança, é o que tem preço, demonstração e data de instalação. Só que BIM não é um programa, é um processo de gestão de informação, e é exatamente aí que a maioria das implementações trava.

A norma que rege o assunto deixa isso explícito. A ABNT NBR ISO 19650 trata de organização e digitalização da informação sobre edificações, incluindo a modelagem da informação da construção, e organiza a implementação em torno de requisitos de informação, plano de execução e um ambiente comum de dados. Software aparece como consequência, não como ponto de partida. Se a norma ainda é novidade para você, escrevi um artigo só sobre ela: o que você precisa saber sobre a ISO 19650.

A lista abaixo não é teórica. São os erros que mais aparecem quando um escritório nos procura depois de uma primeira tentativa frustrada de migrar, ou no diagnóstico inicial de quem está começando agora.

1. Tratar a migração como uma troca de software

O erro que origina quase todos os outros. O escritório compra as licenças, contrata um treinamento de comandos e espera que a equipe "aprenda o programa". Seis meses depois, os projetos continuam saindo do mesmo jeito, só que agora modelados em 3D.

Modelar em 3D não é BIM. BIM começa quando a informação do modelo passa a alimentar decisões: quantitativos, compatibilização entre disciplinas, documentação que se atualiza sozinha, dados que sobrevivem ao fim do projeto. Sem isso, o escritório pagou por uma ferramenta cara para fazer o que já fazia.

Como evitar. Antes de qualquer treinamento, defina para que o escritório quer o BIM. Quais entregas precisam melhorar? Onde está o retrabalho hoje? Que informação vocês perdem entre uma etapa e outra? A resposta a essas perguntas é o que determina como o modelo deve ser construído, e não o contrário.

2. Pular o diagnóstico do processo atual

Implementar BIM sobre um processo que ninguém mapeou é padronizar a confusão. Se o escritório não sabe, hoje, quem faz o quê, em que ordem, com que arquivo e com que critério de nomenclatura, ele vai levar essa indefinição para dentro do novo ambiente, agora com uma camada de tecnologia por cima.

A ISO 19650-2 estrutura o processo justamente a partir da definição de requisitos de informação e do Plano de Execução BIM, o documento que responde quem produz qual informação, quando, em que formato e com que nível de detalhamento. Não é burocracia de obra pública: é o que impede que cada arquiteto invente o próprio padrão.

Como evitar. Mapeie o fluxo real antes de propor o fluxo ideal. O ponto de partida é sempre como o escritório projeta hoje, com os vícios incluídos.

3. Implementar sem template do escritório

Este é o erro mais caro e o mais silencioso. Sem um template próprio, cada projeto nasce de um arquivo diferente, cada arquiteto cria as próprias camadas, materiais e pranchas, e o resultado é um escritório onde ninguém consegue abrir o arquivo do outro sem perder meia hora entendendo a lógica.

O template é o arquivo base que define como o escritório inteiro modela, documenta e automatiza: camadas, bibliotecas, materiais de construção, pranchas, tabelas e as tarefas repetitivas que passam a acontecer sozinhas. A própria Graphisoft trata padrões de escritório e template como um dos eixos centrais da função de BIM Manager no Archicad.

Como evitar. O template precisa existir antes de a equipe começar a produzir no novo ambiente, e precisa refletir o jeito que aquele escritório projeta. Template genérico baixado da internet resolve os primeiros dias e cria dívida técnica para os anos seguintes. Se o seu escritório já usa Archicad mas nunca padronizou, o caminho costuma ser desenvolver o template personalizado antes de qualquer outra coisa.

4. Treinar a equipe e não acompanhar o primeiro projeto real

Treinamento ensina o que a ferramenta faz. Projeto real ensina o que fazer quando o cliente muda o programa na semana da entrega, quando o consultor manda o arquivo em formato incompatível, quando o modelo fica pesado. É nesse momento que a equipe decide, sozinha, se mantém o padrão ou se volta a improvisar como fazia antes.

Quando não há acompanhamento, a decisão quase sempre é voltar ao improviso. Não por má vontade, mas porque prazo aperta e o caminho conhecido é mais rápido.

Como evitar. Planeje suporte próximo durante os primeiros projetos feitos inteiramente no novo processo. O objetivo não é resolver dúvidas de software, é impedir que o padrão se dissolva na primeira pressão de prazo.

5. Escolher o projeto errado para estrear

Muitos escritórios elegem como projeto-piloto o mais importante da carteira ("já que é pra valer, vamos fazer valer") ou o mais complexo ("se funcionar nesse, funciona em qualquer um"). Os dois são péssimas escolhas. O primeiro coloca o cliente mais sensível dentro da fase mais instável. O segundo empilha problemas de processo com problemas de projeto, e quando algo dá errado ninguém sabe qual dos dois causou.

Como evitar. Escolha um projeto de porte médio, com prazo realista, escopo conhecido e uma equipe pequena e disposta. A função do piloto é gerar aprendizado com risco controlado, não provar nada para ninguém.

6. Modelar mais do que o necessário

É o erro de quem se empolga. A equipe começa a detalhar parafuso, rodapé e rejunte em fase de estudo preliminar, o modelo fica lento, a produtividade despenca e a conclusão equivocada aparece rápido: "BIM é mais demorado".

A discussão de nível de desenvolvimento existe justamente para isso. A LOD Specification, publicada pelo BIMForum, é a referência mais usada internacionalmente para definir quanta informação um elemento precisa carregar em cada fase do projeto. O princípio é simples: informação só deve existir no modelo quando alguém for usá-la para alguma coisa.

Como evitar. Defina, por fase e por disciplina, qual o nível de detalhamento suficiente. Tudo além disso é custo sem retorno.

7. Deixar a liderança de fora e chamar a resistência de "problema da equipe"

Resistência é sintoma, não causa. Quando a equipe resiste, quase sempre é porque foi comunicada da mudança em vez de envolvida nela, porque não sabe qual é o objetivo, ou porque percebeu que a liderança não vai sustentar o processo quando o prazo apertar. Se o sócio continua pedindo o arquivo "do jeito antigo, que é mais rápido", a implementação acabou naquele dia, ainda que ninguém anuncie.

A própria CBIC aponta a resistência cultural do setor como uma das barreiras centrais à adoção do BIM no Brasil, ao lado do custo de software e da falta de capacitação. Trata-se de um problema de gestão da mudança, não de treinamento.

Como evitar. O alinhamento começa na liderança, antes de qualquer mudança chegar à equipe. Quem decide precisa saber o que vai piorar temporariamente, por quanto tempo, e o que ganha no fim. E precisa sustentar isso publicamente.

8. Esperar ganho imediato e desistir no meio da curva

Toda implementação tem um período em que a produtividade cai. A equipe está aprendendo ferramenta nova, processo novo e padrão novo ao mesmo tempo, enquanto continua entregando. Esse vale é normal, previsível e passageiro, mas se ninguém avisou que ele existe, ele é lido como fracasso, e é nesse ponto que a maioria das implementações é abandonada.

Como evitar. Trate a queda inicial como parte do plano, não como imprevisto. Combine com a equipe e com os sócios qual é a expectativa realista de cada trimestre, e meça o progresso por indicadores de processo (padrão sendo seguido, retrabalho caindo, documentação saindo do modelo) antes de cobrar indicadores de velocidade.

Um erro extra, que não é do escritório: achar que dá para adiar

O BIM deixou de ser diferencial competitivo e virou requisito em uma parte crescente do mercado. No setor público, o Decreto nº 10.306/2020 estabeleceu o uso do BIM em obras contratadas pela administração pública federal direta, autárquica e fundacional em fases sucessivas: a partir de janeiro de 2021 para elaboração de projetos de empreendimentos de grande relevância, a partir de janeiro de 2024 incluindo execução e gestão de obras, e a partir de janeiro de 2028 abrangendo também a fase de operação e manutenção, com escopo ampliado para empreendimentos de média ou grande relevância. O decreto integra a Estratégia BIM BR, instituída pelo Decreto nº 9.983/2019.

Escritórios de arquitetura privada não são alcançados diretamente pela norma, mas trabalham com incorporadoras, consultores e construtoras que já são. Quem chega depois costuma implementar sob pressão de contrato, que é a pior condição possível para fazer isso bem.

O denominador comum dos oito erros

Todos eles têm a mesma raiz: o escritório trata a implementação como um evento, e ela é um processo. Evento tem data de início e de fim, treinamento e certificado. Processo tem diagnóstico, padrão construído sob medida, acompanhamento em projeto real e ajuste ao longo do caminho.

É por isso que implementação de BIM bem-feita não é ensinar software. É aplicar conceitos de BIM ao jeito que aquele escritório, especificamente, já projeta.

Checklist rápido antes de começar

  • Sabemos por que queremos BIM, em termos de entrega e de negócio, não de tecnologia
  • Mapeamos como o escritório projeta hoje, com os problemas reais listados
  • Definimos quem responde pelo padrão dentro do escritório
  • Teremos um template próprio pronto antes de a equipe começar a produzir
  • Escolhemos um projeto-piloto de risco controlado
  • Definimos nível de detalhamento por fase
  • A liderança está alinhada e vai sustentar o processo sob pressão de prazo
  • Combinamos uma expectativa realista para os primeiros meses

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para implementar BIM em um escritório de arquitetura?

Depende do porte da equipe e do formato de implementação, mas é medido em meses, não em semanas. Na nossa experiência, um processo completo de implementação, incluindo diagnóstico, template, treinamento e acompanhamento em projeto real, costuma levar de 6 a 12 meses.

É possível implementar BIM sem parar a produção do escritório?

Sim, e é assim que deve ser feito. A implementação acontece em paralelo à operação, com dedicação planejada da equipe e ajustes combinados nos projetos em andamento.

Meu escritório já usa Archicad, mas sem padrão nenhum. É implementação ou template?

Nesse caso o caminho costuma ser o desenvolvimento de template, não a implementação completa. A ferramenta já está no escritório; o que falta é o padrão que faz ela render.

E se o problema for só um ponto específico do fluxo?

Aí o caminho costuma ser uma consultoria pontual, e não um processo completo de implementação. Diagnosticar isso antes de contratar economiza bastante dinheiro.

Qual o maior erro de todos?

Confundir software com processo. É o erro que produz todos os outros.

Fontes

  1. ABNT NBR ISO 19650-2:2022, gestão da informação usando a modelagem da informação da construção, fase de entrega dos ativos.
  2. Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020, fases de uso do BIM em obras públicas federais.
  3. Decreto nº 9.983, de 22 de agosto de 2019, Estratégia Nacional de Disseminação do BIM.
  4. CBIC, barreiras à adoção do BIM no Brasil, 22 de junho de 2022.
  5. Graphisoft, Archicad Office Standards and Templates.
  6. BIMForum, LOD Specification, referência internacional de nível de desenvolvimento por fase.

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Gabriela Zanin, fundadora da Migra BIM

Gabriela Zanin

Fundadora da Migra BIM

Gabriela Zanin é arquiteta e fundadora da Migra BIM, empresa de implementação, treinamento e consultoria de Archicad. Já participou da implementação de BIM em mais de 200 escritórios de arquitetura no Brasil e em Portugal. Conheça a Migra.

Publicado em 26 de agosto de 2026 · Atualizado em 26 de agosto de 2026

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